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O Estatuto Científico da Parapsicologia *

Wellington Zangari * *

 

Este trabalho tem como objetivo discutir a cientificidade da Parapsicologia. Esta discussão se faz necessária, sobretudo pelo pouco tratamento do tema no meio acadêmico brasileiro. Serão apresentados os argumentos favoráveis e desfavoráveis à aceitação da Parapsicologia enquanto uma ciência, bem como o espaço social científico que tem conquistado desde sua fundação. Não se pretende fazer uma apresentação exaustiva da história dessa disciplina, mas uma história do embate político em torno de sua cientificidade.

O campo de estudo da Parapsicologia: Procurando unicórnios?

Em todas as culturas e em todas as épocas há relatos de pessoas que dizem ter tido sonhos relacionados a eventos futuros. Pessoas que afirmam ter a capacidade de contatar pessoas falecidas. Feiticeiros e curadores que sustentam poder atuar sobre a saúde de pessoas que se encontram a longas distâncias. Outras relatam ter visto, na presença de outras pessoas, objetos levitando ou queimando sem que ninguém lhes ateassem fogo. São ainda numerosos os casos de pessoas que dizem poder sair de seus corpos e, então, viajar para lugares distantes onde jamais haviam estado. Sem falar dos casos em que pessoas são vistas levitando a grandes alturas enquanto estão em uma espécie de êxtase religioso. Há casos, ainda de animais que, ao se perderem de seus donos em mudanças residenciais, aparecem, após meses, na nova casa da família, há muitas centenas de quilômetros de distância da anterior.

Experiências como as relatadas acima dão conta de processos de interação entre os seres humanos (e quem sabe, entre os animais), e entre os seres humanos (e talvez animais) e o meio ambiente. A Psicologia e a Fisiologia prevêem que os organismos interagem entre si e com o meio por intermédio dos sentidos e dos músculos. Assim, enquanto conversamos com uma outra pessoa, podemos ouvi-la e vê-la, e responder às suas perguntas. Mas o que dizer de experiências em que essas pessoas estão espacialmente distantes e, ainda assim, comportam-se como se estivessem recebendo flashs de informações umas das outras? Houve apenas uma coincidência? Houve um erro de interpretação? As pessoas envolvidas sofrem de algum tipo de psicopatologia? Ou existe algum tipo de interação que independe dos sentidos ordinários ou da ação muscular conhecida? Não haveria um "sexto sentido", que pudesse explicar tais acontecimentos? Ou nosso conhecimento acerca dos sentidos e da ação muscular é ainda limitado?

A Parapsicologia estuda "interações, tanto sensoriais quanto motoras, que parecem não ser mediadas por qualquer agente ou mecanismo físico conhecido". (Rush, 1986, p. 4) Tradicionalmente, os parapsicólogos dividem os fenômenos parapsicológicos em duas categorias: os extra-sensoriais, ou fenômenos de percepção extra-sensroial, e os extra-motores, ou fenômenos psicocinéticos. A percepção extra-sensorial, ou ESP (do inglês, extrasensory perception) é composta por dois tipos de fenômenos de conhecimento: a telepatia, ou ESP cuja fonte é outro ser humano, e a clarividência, ou ESP cuja fonte seria o próprio meio ambiente. Telepatia e clarividência poderiam estar relacionadas a eventos do passado (retrocognição), presente, (simulcognição) e futuro (precognição). A psicocinesia, ou PK (do inglês, psychokinesis), ou seja, a ação parapsicológica sobre o meio, poderia se dar no mundo físico diretamente observável (macro-PK) ou sobre o mundo físico microscópico (micro-PK). Todos esses fenômenos juntos são chamados de psi, vigésima terceira letra do alfabeto grego, geralmente utilizada como o X em matemática, como a incógnita de uma equação. Utiliza-se o termo psi como um termo neutro, sem a pretensão de descrever ou explicar os fenômenos por ele expressos.

A Parapsicologia, portanto, estuda interações aparentemente extra-sensório-motoras, o que é muito diferente de dizer que a Parapsicologia estuda fenômenos paranormais. Isto implicaria que os parapsicólogos assumissem que tais experiências envolveriam, de fato, interações extra-sensório-motoras. A utilização do termo "aparentemente" tem como objetivo não oferecer qualquer explicação apriorística. Assim, apenas parecem, seja àquele que o vivenciou ou ao cientista que o investigou, estar fora do reino conhecido pelas ciências em geral. A paranormalidade das experiências citadas é uma das hipóteses a serem investigadas. E a última. Muitas vezes o pesquisador reconhece uma explicação "normal" , isto é, aceita pelo establishment científico, para uma experiência que, para aquele que a viveu, era tida como paranormal. Por exemplo, um dia fui procurado por um senhor que dizia que sua casa estava sendo habitada por fantasmas. Dizia que grandes quantidades de água apareciam misteriosamente em diversos pontos de sua residência e as lâmpadas se queimavam freqüentemente. Um rápido exame do local mostrou que, na verdade, as interpretações do consulente estavam equivocadas. A casa era antiga e o encanamento, já apodrecido pelo tempo, fazia minar água por quase toda sua extensão. As lâmpadas se queimavam acima da freqüência habitual não pela ação dos supostos fantasmas, mas porque a flutuação elétrica era excessiva devido à proximidade de sua casa a uma fábrica que consumia grandes e variáveis quantidades de energia elétrica. Há, entretanto, casos em que nenhuma explicação dada pelas ciências estabelecidas parece ser suficiente para a sua compreensão. É nesses casos que a hipótese paranormal é levantada.

Dizer que a Parapsicologia estuda interações aparentemente extra-sensório-motoras, não significa dizer o que ela estuda. A definição negativa do objeto de estudo da Parapsicologia leva a problemas terminológicos, metodológicos e filosóficos. Tornou-se tradição referir-se aos fenômenos aparentemente extra-sensoriais como fenômenos de percepção extra-sensorial. Então, poder-se -ia perguntar: se não se trata de uma percepção sensorial, de que tipo de percepção se trata? Dizer que algo não é alguma coisa, não significa dizer o que de fato é. Como estudar algo que não se sabe o que é? Não conhecendo as variáveis que influenciam a produção dos fenômenos em questão, como controlá-las? Supondo que existam processos paranormais envolvidos na sua produção, a ciência estaria errada ou incompleta? Como sair dos aparentes impasses que elas implicam?

Antes de mais, seria importante saber de que maneira a Parapsicologia tenta responder a essas questões. Ela o faz utilizando a metodologia científica, levantando hipóteses e testando-as. A primeira pergunta que se tentou responder em Parapsicologia foi: essas experiências são realmente o que parecem ser? Realmente existem processos extra-sensório-motores? Para responder a essa pergunta foram realizadas milhares de séries experimentais com o objetivo de testar a variável independência dos sentidos conhecidos e dos músculos. Qual o resultado dessas pesquisas dirigidas à prova? Tais pesquisas -algumas das quais serão detalhadas mais adiante neste trabalho - apresentam dados suficientes para demonstrar que há evidências da existência da interação extra-motora.

Isto significa que os parapsicólogos acreditam em fenômenos como a transmissão de pensamento, a premonição, as casas mal-assombradas? O Dr. Richard Broughton, presidente da Parapsychological Association (1996), a mais importante instituição profissional que congrega parapsicólogos de todo o mundo, relata que foi entrevistado por um jornalista que lhe fez essa mesma pergunta. O Dr. Broughton respondeu: "Não, eu não acredito". E explica:

"Eu respondi e então olhei para o rosto do repórter que demonstrava uma familiar expressão de perplexidade. Claro que então eu tive que explicar ao surpreso repórter que eu considero a ‘crença’ como algo apropriado para assuntos ligados à fé, tais como questões religiosas, mas não para assuntos científicos. As crenças religiosas particulares requerem o que os teólogos chamariam de "arroubos de fé" porque não há evidências para sustentá-las. Como um cientista eu não tenho arroubos de fé em relação ao meu objeto de estudo. Eu estudo a evidência". (Broughton, 1991)

Essas evidências são suficientes para se constituir uma ciência dedicada ao seu estudo? Se não se sabe o que se está estudando, porque constituir uma ciência com a finalidade de estudar essas evidências? Em primeiro lugar, as evidências são suficientes e respeitam os parâmetros utilizados pelas demais ciências. Quando os físicos afirmam ter evidências da existência de uma nova partícula subatômica, é porque estão certos disso, já que, supõe-se, tomaram precauções para evitar que enganos ocorressem. Tais precauções são as mesmas empregadas pelos parapsicólogos. Se essas evidências existem, por que não investigá-las?

A palavra dos críticos

Desde o início da pesquisa dos fenômenos parapsicológicos há cientistas de várias disciplinas e mágicos e que têm se dedicado a avaliar as evidências da existência dos fenômenos parapsicológicos. Com essa finalidade, foram criados, em vários países, instituições de críticos. A mais importante dessas instituições é o Committee for the Scientific Investigation of Claims of the Paranormal (CSICOP), fundada em 1976 pelo filósofo Dr. Paul Kurtz e pelo sociólogo Dr. Marcelo Truzzi. Kurtz e Truzzi se dedicavam ao estudo acadêmico de crenças e práticas ocultas. Fizeram campanhas contra o que consideraram "pseudo-ciências", pricipalmente a Astrologia. O CSICOP nasceu com os seguintes objetivos:

"a investigação crítica das alegações do paranormal e da ciência marginal de um ponto de vista responsável e científico e a disseminação de informações factuais sobre os resultados de tais questões à comunidade acadêmica e ao público". (Kurtz, 1976)

O comitê teve, rapidamente, grande número de adesões de profissionais de diversas áreas. Entretanto, o trabalho foi prontamente questionado pelos seus próprios membros. Truzzi abandonou-o, assim como muitos membros, alegando que o comitê havia se tornado um meio de luta contra a existência de anomalias científicas, abandonando seus objetivos iniciais.

Um dos membros do CSICOP, C.E.M Hansel, um psicólogos inglês, dedica-se à análise de experimentos parapsicológicos. Sua tese é a de que os resultados positivos obtidos experimentalmente em favor da hipótese da percepção extra-sensorial foram fraudados. (Hansel, 1980) Hansel se detém, em suas análises, a construir o cenário dos conluios entre os pesquisadores ou às possibilidades de fraudes por parte dos sujeitos de experimentação.

Como em qualquer área, também em Parapsicologia há pesquisadores inescrupulosos. Há dois casos bem documentados de pesquisadores que foram surpreendidos cometendo fraudes. O "caso Levy", como ficou conhecido, refere-se à fraude relacionada a pesquisas de supostos fenômenos parapsicológicos em animais. (Rhine, 1974) Walter Levy modificava os resultados experimentais desfavoráveis por resultados positivos. Houve suspeitas por parte de seus colegas e Levy acabou confessando que utilizara do expediente da fraude para "melhorar" os resultados de suas pesquisas. O Outro caso clássico, refere-se às fraudes cometidas pelo Dr. Soal, matemático inglês. Soal parece ter fraudado os resultados acrescentando dados não obtidos nas sessões originais. (Irwin, 1994, p. 317)

O argumento de que sempre há a possibilidade de fraude nas pesquisas parapsicológicas é um argumento que poderia ser utilizado para qualquer ciência. Isto nos levaria a invalidar os resultados das pesquisas realizadas por milhares de investigadores em todas as áreas do conhecimento, o que é um absurdo. Não parece lógico que haja uma grande conspiração entre os parapsicólogos a qual poderia ser a razão dos bons resultados obtidos pelas pesquisas em favor da percepção extra-sensorial. Apesar disso, críticos como Hansel, continuam a sustentar tal explicação. Os casos de Levy e Soal representam uma ínfima parte dos pesquisadores envolvidos em programas de pesquisas parapsicológicas. Assim, o argumento de que "poderia ter havido uma fraude" parece insustentável.

Críticas melhor elaboradas se detiveram a examinar as condições experimentais das pesquisas parapsicológicas. A posição dos críticos é a de que "deve haver erro em algum lugar". Assim, suspeitaram que os alvos não fossem selecionados de forma aleatória, que não havia controle contra o vazamento sensorial em alguns experimentos, que a metodologia estatística não estava sendo adequada.

As críticas desse tipo atingiram as pesquisas realizadas no centro de pesquisas parapsicológicas mais importantes dos EUA, o Laboratório de Parapsicologia na Universidade de Duke, na Carolina do Norte, EUA, fundado em 1935, sob os auspícios do eminente psicólogo americano William McDougall. Dr. Joseph Banks, considerado o "Pai da Parapsicologia", sua esposa, a Dra. Louisa Ella Rhine, ambos biólogos de formação, integravam o laboratório, com outros colegas. A equipe do Laboratório de Parapsicologia tinha como marca a pesquisa experimental e o emprego da estatística matemática como auxiliar na investigação da hipótese da percepção extra-sensorial e da psicocinesia (ação direta da mente sobre o meio físico). Após a publicação do primeiro relatório, Extrasensory Perception, em 1933, Rhine e seus colegas foram duramente criticados pela suposta má utilização da estatística. Rhine chamou tais críticas de "as primeiras críticas sérias". (Rhine, 1937) Embora acreditasse não haver razão para tais críticas, respondeu a todas elas, fazendo com que alguns de seus críticos mudassem de opinião:

"Duvidou-se da matemática, é certo; não porém por parte de um único matemático. Dois psicólogos escreveram quatro artigos criticando-a; mas o autor de três deles convenceu-se de que sua crítica não tem razão de ser, agora que possui o que acha ser número suficiente de novas informações. Um terceiro psicólogo publicou, mais recentemente, uma revisão das críticas e afirma que as estatísticas usadas nessas pesquisas são substancialmente corretas". (Rhine, 1937)

O que diziam os matemáticos? Em 1937, durante a convenção anual do Instituto Americano de Estatístaca Matemática, foi designada uma comissão para avaliar a utilização da estatística empregada no Laboratório de Parapsicologia. Após a análise, o presidente da referida convenção, E. H. Huntington, emitiu a posição dos membros do grupo de trabalho:

"As investigações do Dr. Rhine têm dois aspectos: um experimental e outro estatístico. Na fase experimental os matemáticos, supõe-se, não têm nada a dizer. Mas na fase estatística, recentes trabalhos matemáticos estabeleceram o fato de que, admitindo que as experiências tinham sido realizadas corretamente, a análise estatística é essencialmente válida. Se a investigação de Rhine pode ser atacada, há de sê-lo em outro terreno que não o matemático" (Rhine, 1971)

Recentemente, críticos e parapsicólogos têm debatido resultados experimentais relacionados à pesquisa de duas técnicas de pesquisa parapsicológica: ganzfeld e visão remota. Mais à frente, neste trabalho, há uma sessão dedicada a cada um desses experimentos. Portanto, não serão tratados neste momento em profundidade. Interessa aqui a compreensão mínima das técnicas para que o leitor possa entender sobre o que se está tratando e a posição de críticos e parapsicólogos a respeito delas.

Ganzfeld, do alemão, significa campo completo, campo homogêneo, campo total. A técnica ganzfeld consiste em que uma pessoa esteja deitada, ou confortavelmente instalada em uma poltrona reclinável, enquanto vê e ouve estímulos padronizados. Sobre cada um de seus olhos é colocada meia bolinha de ping-pong. Nos ouvidos, o fone de ouvido transmite ruído branco, parecido ao som de rádio fora de estação. A pessoa se mantém com os olhos abertos, de forma a ver a tonalidade avermelhada que é projetada sobre as meias bolinhas de ping-pong. Essa técnica, desenvolvida por psicólogos da gestalt na década de 1950, permite ao sujeito uma grande produção de imagens mentais, não apenas pela homogeneização da entrada de estímulos sensoriais auditivos e visuais, mas também pela alteração de consciência que a técnica pode proporcionar.

Os parapsicólogos se interessaram em aplicar a técnica ganzfeld em experimentos parapsicológicos por saberem que estados alterados de consciência aumentam a chance de ocorrência de experiências parapsicológicas. Sabia-se, por exemplo, que os sonhos, a meditação e a hipnose poderiam favorecer a emergência de conteúdos telepáticos do inconsciente para a consciência dos indivíduos. Uma pessoa submetida à tecnica ganzfeld não poderia estar mais "aberta" a receber pensamentos, sentimentos e imagens mentais de uma outra pessoa localizada à distância? Assim, a utilização da técnica ganzfeld em experimentos parapsicológicos se processou, tendo como participantes um emissor, um receptor e um expeirmentador. O papel do emissor era o de olhar par uma imagem, como uma foto, ou um video-clip, e desejar transmiti-la ao receptor. Ao receptor, que se encontrava afastado espacialmente do emissor, cabia falar tudo o que lhe viesse à mente enquanto estava na situação ganzfeld, ou seja, com estímulos visuais e auditivos controlados. Todo o procedimento era controlado pelo experimentador, que dispunha de equipamentos de som e videocassete, para gravar o que o receptor falava e para enviar ao emissor a imagem a ser transmitida.

Charles Honorton foi um dos parapsicólogos que mais se dedicou à análise teórica e experimental da ação da técnica ganzfeld em testes parapsicológicos. (Honorton, 1977). Os resultados apresentavam índices de acerto acima dos níveis esperados pelo acaso, mostrando uma evidência da existência de uma forma de comunicação psi, facilitada pela técnica ganzfeld.

Não demorou para que críticos explicassem os bons resultados por erros cometidos pelos parapsicólogos. Ray Hyman, um respeitado psicólogo americano, é o mais importante representante dos críticos dos experimentos ganzfeld em Parapsicologia. Honorton, por sua vez, tratou de argumentar em favor da qualidade da pesquisa realizada por ele e por seus colegas. As críticas feitas por Hyman se detiveram ao aspecto da taxa de repetição do experimento, acima da esperada pelo acaso. Isto significa que os experimentos ganzfeld apresentaram resultados consistentes acima da média esperada pelas leis estatística.

Entre outras críticas, Hyman afirmou que os resultados positivos foram obtidos porque os parapsicólogos publicavam apenas os experimentos que apresentavam bons resultados. Entretanto, um levantamento realizado por Susan Blackmore (Blakmore, 1980) dá conta de que os experimentos ganzfeld não publicados apresentavam resultados semelhantes aos experimentos publicados. Além disso, chegou-se à conclusão matemática de que, para invalidar o conjunto de trabalhos que apresentavam bons resultados experimentais, seria necessária uma quantidade tal de pesquisas que não apresentassem índices acima do esperado pelo acaso, que superava a possibilidade de tempo possível de realização das mesmas.

Hyman ainda sustentou que os bons resultados poderiam ter sido obtidos pela existência de pistas sensoriais e por problemas no processo de aleatorização dos alvos. (Hyman, 1985) Essa crítica foi levada foram levadas em conta pelos parapsicólogos. Honorton e alguns colegas desenvolveram um novo procedimento experimental, chamado ganzfeld automático ou auto-ganzfeld, com a finalidade de impedir a possibilidade de pistas sensoriais e de erros no processo de escolha dos alvos. (Honorton et al., 1990) Se Hyman estivesse certo, os índices obtidos com a nova técnica cairiam aos níveis esperados pela chance matemática. Entretanto, a meta-análise dos resultados das pesquisas que empregaram o auto-ganzfeld, mostrou significação estatística, evidenciando uma vez mais a possibilidade da existência de processos de comunicação psi. (Honorton et al., 1990)

Visão Remota, ou visão à distância, é o nome dado à técnica de pesquisa parapsicológica em que uma pessoa, o emissor, tenta obter informações de uma localidade distante dele. Em outras palavras, o emissor tenta conhecer a realidade física distante dele por clarividência. Essa técnica foi idealizada nos anos 70 por dois físicos, Russell Targ e Harold Puthoff, no Stanford Research International. (Targ e Puthoff, 1977) A técnica clássica consistia em que o emissor tentasse descrever o lugar em que uma outra pessoa, o emissor, estava. O local era escolhido de forma aleatória, quando o emissor estava distante do receptor.

Recentemente, os noticiários de todo mundo informaram que o governo americano gastou cerca de vinte milhões de dólares subvencionando pesquisas de visão remota, tendo em vista as possibilidades de aplicação militar. O programa, conhecido como Star Gate, foi realizado durante vinte e quatro anos, primeiramente com subvenção ao grupo do Stanford Research Institute International e, posteriormente, ao grupo do SAIC - Sciences Applications International Corporation, dirigido pelo Dr. Edwin C. May.

As notícias vieram a público porque o congresso americano estava discutindo as destinações de verbas para o ano fiscal de 1995. O congresso orientou a CIA - Central Inteligence Action, para revisar os resultados dos vinte e quatro anos de pesquisa do Star Gate com a finalidade de reconhecer o real valor e pertinência dessas pesquisas. A CIA se uniu ao American Institute for Research (AIR) para realizar tal análise. Foram convidados especialistas de reconhecida competência em suas especialidades para compor um painel de discussões. O Prof. Ray Hyman foi convidado, além da estatística e parapsicóloga, Profa. Jessica Utts, da Universidade da Califórnia, Davis, dos doutores Michel Munford e Andrew Rose do American Institute Research. O Dr. David Goslin, presidente do AIR, coordenou o painel.

A investigação da AIR, subvencionada pela CIA, concluiu que "efeitos laboratoriais estatisticamente significativos foram demonstrados, mas que serão necessárias mais replicações". Hyman e Utts escreveram revisões separadas que foram incluídas no relatório da AIR.

Pediu-se ao Dr. Hyman que utilizasse o mesmo material usado pela Dra. Utts em sua análise. Entretanto, ele apenas fez um comentário sobre a análise que a Dra. Utts fez a respeito desse material. O Dr. Hyman concluiu que

"o efeito de tamanho relatado nos experimentos do SAIC eram muito grandes e consistentes para serem desprezados como sendo um resultado acidental". (Hyman, 1995 p. 12)

Hyman, entretanto, afirmou que tal efeito matemático não seria suficiente para justificar a conclusão de demonstração da existência de processos anômalos de conhecimento. Sustentou, ainda, que ele não tinha segurança de que problemas metodológicos haviam sido eliminados e que os resultados obtidos pelo SAIC correspondiam aos resultados obtidos por outros centros parapsicológicos. (Hyman, 1995, p. 14)

A conclusão da Profa. Utts foi assim resumida:

"Usando os padrões empregados em qualquer outra ciência, concluiu-se que o funcionamento parapsicológico foi bem demonstrado. Os resultados estatísticos dos estudos examinados apresentam resultados distantes dos esperados pelo acaso. Os argumentos de que os resultados poderiam ser obtidos por erros metodológicos nos experimentos foram fortemente refutados. Efeitos de semelhante magnitude àqueles encontrados nos programas do SRI e do SAIC, subsidiados pelo governo, têm sido encontrados em muitos laboratórios pelo mundo. Tal consistência não pode ser prontamente explicada por alegações de erros ou fraude". (Utts, 1995, p. 15)

Os debates entre parapsicólogos e críticos exemplificados acima refletem parte da luta travada pelos parapsicólogos para a aceitação da Parapsicologia como ciência. Entretanto, como foi visto, os argumentos dos críticos sempre levantam a possibilidade de que algum ato de incompetência dos parapsicólogos poderia ser responsável pelos resultados positivos das pesquisas parapsicológicas. A alegação de que erros metodológicos poderiam ser responsabilizados levou os parapsicólogos a revisar suas situações experimentais e a incluir, muitas vezes, a presença de observadores críticos. Mas não há como responder a críticas do tipo "sempre pode haver uma fraude". Argumentos como este demonstram que a verdadeira posição do crítico é: "não pode haver um fenômeno como esse". Alguns críticos até chegam a fazer tal afirmação. (Alcock, 1981) Muitas vezes, o esforço do crítico em tornar sua crítica objetiva pode ser compreendido como uma forma de defesa contra a percepção de um elemento absolutamente irracional presente em sua análise. Ao invés de reconhecer a irracionalidade de seu argumento, acusa de irracionalidade os dados das pesquisas.

Se esta análise está correta, devem existir motivos para a rejeição da possibilidade de fenômenos parapsicológicos. Tais motivos devem ser suficientemente amplos, ou culturais, para que a análise não fique restrita à esfera individual, mas que se estenda aos cientistas enquanto grupo. AAAA ASSSASPoderíamos reconhecer tais motivos a partir da análise do que é considerado possível ou impossível no paradigma científico atual? Caso psi não esteja previsto por esse paradigma, que saídas os parapsicólogos têm para garantir seu espaço na comunidade científica?

Ciência e Parapsicologia

A ciência pode ser definida como "uma das formas de conhecimento produzido pelo homem no decorrer de sua história" (Andary et al., 1988). E caracteriza-se "por ser a tentativa do homem entender e explicar racionalmente a natureza, buscando formular leis que, em última instância, permitem a atuação humana". (Andary et al., 1988)

Apesar da definição acima poder ser considerada suficiente para uma introdução ao tema, está longe de ser completa e ser admitida em consenso pelos filósofos da ciência. Existem muitas abordagens filosóficas e muitos critérios e concepções de avaliação do que é ou pode ser considerado científico.

Para o objetivo deste trabalho, serão apresentadas, a princípio, algumas abordagens que caracterizam o que pode ser chamado de "a visão clássica" de ciência. Posteriormente será discutido, o conceito de cientismo, cujas raízes encontram-se fincadas sobre a concepção clássica de ciência. O cientismo servirá como base de reflexão sobre a cientificidade da Parapsicologia e novos paradigmas serão trazidos à discussão para resolver possíveis impasses.

A ciência enquanto disciplina independente é uma criação do homem moderno. As bases epistemológicas sobre as quais a visão científica moderna se estabeleceu podem ser encontradas nas postulações de alguns filósofos e cientistas modernos, como Galileu Galilei, René Descartes, Francis Bacon e Isaac Newton, entre outros. Stanislav Grof, ao discutir as fundações da ciência ocidental, afirma que

"durante os três últimos séculos, a ciência ocidental foi dominada pelo paradigma newtoniano-cartesiano, um sistema de pensamento baseado no trabalho do cientista inglês Isaac Newton e pelo filósofo francês René Descartes". (Grof, 1988)

Quais seriam as seriam as características do pensamento newtoniano-cartesiano? A ciência ocidental herdaria de Newton a visão mecânica do universo, constituída, dentre outras características: do atomismo; da noção de tempo absoluto e independente do mundo material; e da noção de causa e efeito. A partir da noção de átomo, já presente entre os gregos, sobretudo em Demócrito, Newton sustentou que tudo quanto existe no universo é composto por partículas materiais indivisíveis, cujo comportamento seria regido por leis físicas precisas, capazes de determinar o funcionamento íntimo da matéria. Em relação ao tempo, propôs sua autonomia do mundo material, apresentando um fluxo contínuo e imutável, do passado em direção ao futuro. O universo estaria submetido às leis de causa e efeito: toda ação física é acompanhada de um efeito previsível sobre o mundo material. A noção de causa e efeito estava na base da ação da força gravitacional, exercida tanto entre os corpos celestes quanto entre os átomos e na base de sua concepção de ciência. Todos os fenômenos presentes podem ser compreendidos como o resultado de causas materiais identificáveis no passado.

"A imagem do universo resultante é a de um relógio gigantesco inteiramente determinístico. As partículas movem-se de acordo com leis eternas e imutáveis, e os eventos e processos do mundo material consistem em cadeias de causas e efeitos interdependentes". (Grof, 1988)

Ora, se as leis naturais são deterministas, podemos reproduzir a cadeia causa-efeito para obter um dado fenômeno. A reprodução experimental se tornou um importante instrumento de compreensão da natureza e um valioso parâmetro paraverificar a cientificidade de uma disciplina.

Uma das mais importantes contribuições do filósofo francês René Descartes para a formulação da ciência ocidental foi sua afirmação do dualismo existente entre mente (res cogitans) e matéria. (res extensa). O dualismo cartesiano implica em que o conhecimento é possível a partir do conhecimento objetivo do universo. O mundo material era compreendido como uma realidade em si mesma, passível de ser apreendida, utilizando-se o método correto. Descartes instaura, assim, a premissa da objetividade, ou seja, da autonomia entre o observador e a realidade.

Além das características da ciência moderna, Hoyt L. Edge e Robert L. Morris (Edge et al, 1986), apontam outro importante postulado da ciência do século XVII: a observação como um espelhamento. Os autores referem-se ao filósofo empirista John Locke. Ao contrário de Descartes, que estava consciente das deficiências da percepção humana como meio de conhecer a realidade, Locke sustentava que a partir dos sentidos o ser humano conheceria o mundo material. Locke comparava a mente a um espelho, ou a uma folha de papel em branco. Em contato com o mundo material por meio dos sentidos, a mente seria tocada pelos traços da realidade. A observação, como uma espécie de espelhamento da realidade, seria um método eficaz e suficiente para apreender a realidade tal qual ela é. A máxima de Locke, "Nihil est in intellectu quod no antea feurit in sensu" (Locke, 1823), está relacionada com a questão do conhecimento da realidade.

Edge e Morris se referem ainda a um outro importante postulado da ciência do século XVII: a distinção entre distinção primária e secundária.

"A matéria é essencialmente átomos em movimento, cujas dimensões de tamanho e velocidade são mensuráveis. Isto significa que há alguns atributos da matéria que são inatos e essenciais para isso - as qualidades primárias de solidez, extensão, quantidade, movimento, sobra e número. Por outro lado, há qualidades secundárias que não descrevem a natureza inerente do mundo material". (Edge et al., 1986)

Isto implica que algumas qualidades são percebidas apenas indiretamente, pela mente, por exemplo. Seria o caso das cores, dos sons, dos gostos e dos cheiros. A ciência estudaria apenas as qualidades primárias, já que são diretamente mensuráveis. As qualidades secundárias apenas poderiam ser objeto de investigação científica quando houvesse um meio de substituir a sensação por algum parâmetro objetivo. Por exemplo, substitui-se a sensação ‘quente’ ou ‘frio’, pela medição objetiva da temperatura através de um termômetro. Como conseqüência disso, algumas experiências humanas poderão não figurar como objeto de estudo da ciência, ou seja, não seriam objetos legítimos de estudo, por não se enquadrarem no método de investigação proposto pela ciência.

A dicotomia sujeito/objeto, a distinção primária e secundária, a observação como espelhamento, a existência de leis deterministas absolutas, a replicação e o atomismo podem ser considerados como os pressupostos que formam a base do pensamento científico moderno. A utilização de tais postulados foi, até certo ponto, fundamental para o desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Nas palavras de Grof:

"O modelo newtoniano-cartesiano, em suas numerosas ramificações e aplicações, provou seu sucesso em diversas áreas do conhecimento, tendo proporcionado uma explicação compreensiva dos mecanismos básicos do sistema solar e sendo eficazmente aplicado para a compreensão do movimento contínuo dos fluidos, da vibração dos corpos elásticos e da termodinâmica. Constitui-se como base e força propulsora dos incríveis progressos das ciências naturais dos séculos dezoito e dezenove". (Grof, 1989)

Delineado o modelo da ciência clássica, poderia-se perguntar: a Parapsicologia, desde o ponto de vista da ciência clássica, pode ser considerada uma ciência? A resposta é não. Em primeiro lugar, a Parapsicologia estuda experiências humanas. Experiências não seriam um objeto legítimo de estudo científico porque não são diretamente observáveis. O aspecto subjetivo da experiência anularia sua investigação.

Em segundo lugar, tais experiências nem sempre permitem medição. Experiências, subjetivas por definição, nem sempre podem ser transformadas em valores numéricos ou ser apreendidas por equipamentos que permitam tornar objetivas as vivências e sensações do sujeito.

Em terceiro lugar, muitas das experiências que a Parapsicologia estuda podem implicar na interação entre a mente e a matéria, ou mesmo entre mentes. Esta característica colocaria em cheque o pressuposto de que o mundo material e a mente são autônomos, já que poderia haver alguma forma de interação entre sujeito e objeto, diferentes das interações previstas, ou seja, por meio diferente dos sentidos.

Em quarto lugar, há experiências que parecem estar relacionadas a eventos à distância no espaço e no tempo. As experiências parapsicológicas podem trazer dúvidas sobre as noções de espaço e tempo independentes, de continuidade permanente do fluxo do tempo e, sobretudo, de causa e efeito. Como seria possível existir um efeito antecedente a uma causa!?

Em quinto lugar, essas experiências não puderam ser reproduzidas à vontade. Isto significaria que o que se pretende estudar não obedeceria a leis claras e determinadas, o que conseqüêntemente implicaria, de novo, na rejeição do objeto de estudo da Parapsicologia do escopo científico.

Em resumo: a Parapsicologia não seria uma ciência porque pretende estudar experiências não apenas impossíveis de serem estudadas, mas impossíveis de existir.

Apesar disso...

A Pesquisa Psíquica, nome dado à disciplina que tinha como finalidade pesquisar experiências consideradas anômalas, nasceu no final do século XIX, com a fundação da Society for Psychical Research (SPR), em Londres, em 1882, no contexto da ciência clássica. Os fundadores da SPR se opuseram à noção clássica da ciência e devotaram esforços para verificar a realidade das alegações de pessoas que se diziam possuidoras de capacidades parapsicológicas. Henri Sidgwick, primeiro presidente da SPR, assim se manifestou no discurso inaugural da mesma:

"Por que constituir uma sociedade de investigações psíquicas neste momento para pesquisar não apenas o fenômeno de leitura do pensamento, mas também o de clarividência e mesmerismo, e inclusive a obscura massa de fenômenos comumente chamados espíritas? Todos devemos estar em acordo que o presente estado de coisas é um escândalo para a época iluminada em que vivemos. Mantém-se a discussão sobre a realidade destes maravilhosos fenômenos, cuja importância científica não pode ser exagerada se apenas uma décima parte do alegado por testemunhos dignos de crédito fosse certo. Declaro que é escandaloso que subsista a discussão sobre a realidade destes fenômenos quando tantos testemunhos competentes afirmaram neles acreditar, quando tantos outros estão profundamente interessados em elucidar a questão, não obstante a atitude de incredulidade que adotou a totalidade do mundo culto. Agora, nosso primeiro objetivo, o fim que perseguimos todos unidos, seja como crentes ou como incrédulos, é o de realizar uma tentativa segura e sistemática para pôr fim, dum ou doutro modo, a este escândalo. Algumas das pessoas às quais me dirijo, sentem sem dúvida, que esta tentativa pode levar unicamente à demonstração destes fenômenos; outras acreditam que o mais provável é que a maioria deles, se não todos, sejam rejeitados; mas, como membros desta associação, não assumimos compromisso de nenhuma espécie e concordamos em que qualquer investigação que façamos em particular, deve realizar-se com o único fim de determinar os fatos e sem chegar a nenhuma conclusão pré-concebida sobre sua natureza". (Citado em Fantoni, 1981)

William Crookes, grande físico e químico do século XIX, foi criticado pelos cientistas de sua época por estudar fenômenos parapsicológicos. Diziam-lhe que estes fenômenos eram impossíveis e que, portanto, deixasse de estudá-los. Crookes, então, lhes disse: "Eu não digo se eles são possíveis ou impossíveis. Eu digo que eles existem". A resposta de Crookes nos dá conta de que a posição dos cientistas pode estar atrelada às concepções científicas aceitas em certo momento histórico. As palavras de Crookes e Sidgwick mostram um certo grau de descompromentimento com as concepções científicas, em favor do espírito científico de estudar o que se apresente ao cientista. Na verdade, o que está em questão é até que ponto os cientistas estão isentos das concepções científicas de seu tempo.

Algumas mudanças nos postulados científicos ocorridas durante o século XX foram fundamentais para o questionamento da ciência clássica, ou newtoniana-cartesiana e como preparação para a aceitação de anomalias como as parapsicológicas. A verificação de que há uma certa descontinuidade na história da ciência, ofereceu aos cientistas uma dose de humildade e desconfiança em relação aos processos científicos, muitas vezes vistos como inquestionáveis.

A análise histórica que Thomas Khun (1962) faz da ciência é fundamental para verificarmos quais são as relações entre o conhecimento científico, a aceitação de anomalias em dado momento histórico e o poder. Entre outras postulações, Khun define anomalia como o fenômeno para o qual não há teoria científica disponível aceita em consenso em dado momento histórico. Segundo Khun, a "ciência normal" a princípio rejeitaria tais anomalias como legítimas. Posteriormente, graças à presença contínua das anomalias, estas são, então, incorporadas às teorias vigentes, que sofrem certa transformação, de forma a acomodar as anomalias. Tais transformações não implicam em alteração substancial da teoria, apenas ajustes periféricos. Como novas anomalias são identificadas e como simples acomodações teóricas passam a ser insustentáveis, novas teorias surgem, em um processo de "revolução científica", em que "ciências emergentes" passam a ser ciências normais graças à aceitação de seus postulados.

A resistência na aceitação de anomalias é fundamental para a estabilidade interna do processo científico. A rejeição de anomalias tem como parâmetro a teoria vigente. A análise de Khun demonstra que a ciência não trabalha com regras simples e que os cientistas estão comprometidos com seu paradigma. Livros-texto são produzidos informando aos neófitos os conhecimentos legítimos; apoio financeiro é dado aos trabalhos que sustentam, direta ou indiretamente, o paradigma vigente; resultados experimentais anômalos são rejeitados como sendo produtos de erros de metodologia... Khun exemplifica a força do paradigma com a órbita de Urano, no século XIX.

 

"... os astrônomos reconheceram que a órbita de Urano, quando calculada sob os princípios de Newton, não cabia nas observações. Entretanto, a razão para essa discrepância poderia ser que um outro planeta, desconhecido naquele momento, estaria exercendo uma força gravitacional sobre Urano e causando seu desvio da órbita esperada, da mesma forma como a observação mostrava. Baseados nesta hipótese, os astrônomos predisseram o tamanho do planeta desconhecido e sua localização e observações posteriores de fato confirmaram que o planeta, Netuno, existia. É desnecessário dizer que isto foi uma dramática confirmação dos princípios newtonianos. Entretanto, uma situação exatamente análoga a essa noticiou que havia uma disparidade entre a teórica órbita de Mercúrio e a órbita realmente observada. Novamente, os astrônomos tomaram esse caso como mais um quebra-cabeça a ser resolvido através da estrutura teórica newtoniana, predizendo a existência de um outro planeta a ser descoberto. Neste caso, a fé de que o problema poderia ser resolvido pela mecânica newtoniana estava mal embasada, já que apenas com a introdução da matemática prevista pela teoria geral da relatividade é que cálculos precisos sobre a órbia de Mercúrio puderam ser feitos". (Citado em Edge et al., 1986)

 

Um outro fator fundamental para a mudança da visão tradicional ou clássica de ciência foi a mudança da noção de percepção. O filósofo Immanuel Kant questionou a visão clássica de percepção já no século XVIII. Para Kant, a mente não era uma espécie de espelho que apenas recebia os estímulos do meio tal qual eles se apresentavam na realidade. Antes, a mente estava ativa, influenciando no que era percebido, através de ‘categorias’, filtros através dos quais percebemos.

Da mesma forma, mais modernamente, a Psicologia é fundamental para o reconhecimento da complexidade do fenômeno da percepção. A Psicologia da Gestalt, por exemplo, reconheceu o papel do observador no processo de percepção, afirmando que sempre há um envolvimento da constituição psíquica do sujeito, um mecanismo de ação e não apenas de coleta de dados. A Psicanálise foi importante por mostrar que tendemos a construir a realidade conforme nossos desejos. (Freud, 1981) Piaget, com sua Epistemologia Genética, demonstrou que a construção do conhecimento é um processo complexo e jamais unilateral. (Piaget, 1969)

Como foi visto na sessão anterior, a visão clássica de ciência, tomou como parâmetro de análise o desenvolvimento da Física. Quando se afirma que a filosofia científica clássica é newtoniana-cartesiana, se está reconhecendo, de certa forma, a importância que esta ciência tem sobre as noções do que é ou não científico. A Física parece representar uma espécie de diapasão, sob a égide do qual a orquestração científica ocidental deve estar embasada. Talvez mais importante do que o reconhecimento da descontinuidade da história da ciência e a mudança na visão de percepção, as novas formulações da Física foram fundamentais para a mudança da visão clássica de ciência. A nova Física, baseada na Teoria da Relatividade de Albert Einstein, e na Mecânica Quântica de Max Planck, revolucionou não apenas as concepções da Física Clássica, mas também a história do pensamento do século XX.

A nova Física questionou o atomismo promovendo a noção de ‘funções contínuas’, rejeitou a aceitação de invariáveis físicas, aceitando a relatividade ou inter-dependência entre tempo e espaço, e reintroduziu a consciência como importante fator na observação, sustentando que o observador influencia o observado.

Os fatores de questionamento das concepções da visão clássica de ciência apresentados foram suficientes para predispor os cientistas atuais para uma aceitação de anomalias como as parapsicológicas? A resposta a esta pergunta não é simples. Por um lado, como foi apresentado, há críticos cujos argumentos parecem estar alinhados à visão tradicional ou clássica de ciência. Por outro lado, é inegável que a Parapsicologia conquistou certo espaço científico. Assim, não se pode dizer que haja uma aceitação integral da Parapsicologia nos meios científicos, da mesma forma que seria incorreto dizer que há rejeição.

A análise do sociólogo James McClenon em seu livro Deviant Science: The Case of Parapsychology, pode ser útil para se compreender os processos de aceitação e rejeição da Parapsicologia do contexto científico. McClenon sustenta que a rejeição por parte dos cientistas se dê por conta da impregnação do cientismo na mentalidade científica. Ele define cientismo como "o corpo de idéias usadas para legitimar a prática da ciência. Essa idéias são usadas para avaliar alegações de anomalias em termos de atitudes existentes na ciência institucionalizada". (McClenon, 1984, p. 222) Os cientistas definem o que é ou não ciência a partir do cientismo, que prevê que anomalias devem ser investigadas apenas quando puderem ser repetidas, investigadas em laboratório e permitirem explicações de tipo mecanicista. Segundo McClenon, a aceitação da Parapsychological Association (PA) como membro da American Association for Advancement of Science (AAAS), em 1969, não se deveu à aceitação das anomalias estudadas pela Parapsicologia, mas pelo papel desempenhado por aspectos políticos e retóricos que envolveram tal aceitação. Antes da aprovação em 1969, a afiliação da PA à AAAS havia sido negada por quatro vezes, em 1961, 1963, 1967 e 1968. Na verdade, a Parapsicologia não sofreu qualquer importante alteração de 1961 a 1969. O que aconteceu? Em primeiro lugar, Douglas Dean, um ex-presidente da PA e, então, secretário dessa associação, havia empreendido cuidadosos esforços para melhorar as estratégias retóricas dos membros da PA antes das audiências. Dean tratou de apresentar a proposta da PA de forma aceitável do ponto de vista científico. Além disso, em 1969 houve quatro pronunciamentos antes da votação dos membros da AAAS. O primeiro foi contrário à aceitação da PA, alegando que os fenômenos que a Parapsicologia dizia estudar não existiam, portanto não havia trabalho científico a fazer. O segundo dava conta de que a pessoa não conhecia suficientemente a Parapsicologia a ponto de votar a respeito. O terceiro não foi identificado. O quarto foi feito por H. Bentley Glass, presidente da AAAS:

"O Comitê do Conselho considerou o trabalho da PA por um longo período. O comitê chegou à conclusão de que esta é uma associação que está investigando fenômenos controvertidos ou inexistentes; entretanto, está aberta à afiliação de críticos e agnósticos; e eles ficaram satisfeitos porque ela usa métodos científicos de pesquisa; assim, essa investigação pode ser vista como científica. Além disso, informações chegaram até nós dando conta de que o número de Membros da AAAS que são também membros da PA não é de quatro como se encontra na agenda, mas nove". (McClenon, 1986, 128)

Segundo McClenon, "Glass apresentou exemplos das mais importantes estratégias retóricas dos parapsicólogos (o uso da metodologia científica, metamorfose)." Após a fala de Glass, ele perguntou se mais alguém gostaria de se pronunciar. A conhecida e respeitada antropóloga Margareth Mead tomou, então, a palavra:

"Nos últimos dez anos nós temos estado debatendo o que constitui a ciência e o método científico e o que as sociedades usam disso. Nós até mesmo mudamos nossos estatutos a respeito disso. A PA usa estatística e julgamento cego, placebos, julgamento de duplo-cego e outros expedientes científicos padrão. A ampla história do desenvolvimento científico está repleta de cientistas investigando fenômenos que o ‘establishment’ não acreditava que existissem. Eu proponho para análise que nós votemos em favor do trabalho da associação". (McClenon, 1984, p. 182)

A votação teve como resultado a aceitação da PA como membro da AAAS, por cerca de 160 a 180 votos favoráveis contra entre 30 a 35 desfavoráveis. (McClenon, 1984)

McClenon reafirma:

"O opoio do voto de afiliação ilustra os aspectos políticos do processo de argumentação. Apesar de os parapsicólogos não utilizarem novas estratégias retóricas (por exemplo, um experimento replicável ou uma orientação teórica mais importante), eles desenvolveram a habilidade política necessária para apresentar seus argumentos. A influência de Dean em favor da causa dos parapsicólogos foi instrumental na conquista da afiliação da PA. O apoio de Margaret Mead também deve ser considerado importante". (McClenon, 1984, p. 113)

Os exemplo acima demonstra que a instituição ‘ciência’, enquanto instituição humana, está à mercê de aspectos subjetivos. Vemos que a aceitação da Parapsicologia como campo científico legítimo passa, sobretudo, por questões ideológicas, filosóficas e de poder. O Dr. Stanley Krippner afirma que:

"Alguns escritores tomaram a posição de que a Pesquisa Psíquica não se qualifica como ciência, mas esta avaliação depende dos pressupostos que eles fazem sobre o trabalho científico." (MacLellan, 1995)

 

A vitória da retórica e os limites da política

Existem alguns elementos que podem não constituir os principais fatores de verificação da cientificidade de uma disciplina, mas são tão fundamentais para o desenvolvimento das mesmas, que não se encontrará alguma ciência sem tais elementos. Estes elementos são: a existência de uma instituição profissional; a existência de publicações especializadas; a existência de centros de pesquisa, acadêmicos ou privados; a existência de cursos acadêmicos que confiram graus. A Parapsicologia conta com tais elementos.

Como já foi apresentado, a PA foi aceita como membro da AAAS, em 1969. A PA é uma organização profissional, que congrega pouco menos de 400 membros. Fundada em 1957, a PA tem como objetivos: o desenvolvimento da Parapsicologia como ciência; a disseminação do conhecimento do campo; e a integração de seus resultados àqueles de outros ramos da ciência. Anualmente, a PA realiza uma convenção, com a finalidade de apresentar as pesquisas em desenvolvimento, facilitando o trabalho crítico dos seus membros. Publica os anais das convenções, o Research in Parapsychology e um boletim informativo, o PA News. A PA também tem como trabalho refletir sobre o papel dos parapsicólogos, através da consideração dos aspectos éticos que envolvem as atividades dos profissionais. Um código de ética, constantemente revisado, foi publicado pela PA, com a finalidade de oferecer parâmetros de comportamento para os pesquisadores. O sistema de afiliação é rígido, sobretudo para os níveis mais altos da PA. A maioria dos membros da PA são vinculados a instituições científicas universitárias ou privadas.

Existem vários centros de pesquisa espalhados pelo mundo, com atividades variadas, como publicações, pesquisas e ensino. Nos Estados Unidos, destacam-se três centros de pesquisa. O Rhine Research Center, o Princeton Engeenering Anomalies Research Laboratories e a Consciousness Research Division.

O Rhine Research Center (RCC), antiga Foundation for Research on the Nature of Man, é o mais tradicional de todos e também o mais antigo. Foi fundado em 1964 pelo casal Rhine, quando J. B. Rhine se aposentou de suas atividades na Duke University. O RCC abarca o Institute for Parapsychology, dedicado à área de pesquisa e ensino e a Parapsychology Press, que tem a finalidade de manter o Journal of Parapsychology. Na área de pesquisas, sua ênfase é eminentemente experimental, seguindo a tradição do Dr. Rhine. Atualmente são realizadas pesquisas na área de ganzfeld, ESP e percepção subliminar. Na área de ensino, o RRC promove anualmente o Summer Study Program, um curso de oito semanas durante os meses de junho e julho. A direção atual está nas mãos da Dra. Sally Feather, filha do casal Rhine. Os principais parapsicólogos do RRC são o Dr. Richard Broughton, diretor de pesquisas, e o Dr. John Palmer, diretor de ensino.

O Princeton Engeenering Anomalies Research Laboratories (PEARL) está sediado na Universidade de Princeton, e tem como seu diretor o Dr. Robert Jahn. O PEARL tem como principal atividade a pesquisa sobre o relacionamento entre mente-matéria, a partir das investigações de psicocinesia. O laboratório conta com equipamentos que permitem a realização de milhares de séries experimentais em curto espaço de tempo.

A Consciousness Research Division (CRD) é o centro mais recente. Fundado em 1994, a CRD, tem como diretor o Dr. Dean Radin. O foco das pesquisas de Radin e Jannine Rebman, também pesquisadora da CRD, são "experimentos psi na vida cotidiana", ou seja, situações do dia-a-dia, altamente controladas, em que psi poderia estar em funcionamento. Situações como essas são encontradas em cassinos, em que há um rigoroso controle sobre a aleatoridade dos jogos e das condições de motivação dos participantes. Radin e Rebman têm realizado investigações que visam verificar quais as potenciais aplicações práticas de psi. (Radin e Rebdman, 1996)

Ainda nos EUA, a American Society for Psychical Research (ASPR) é importante, sobretudo por publicar o Journal of American Society for Psychical Research (JASPR). A linha editorial do JASPR é balanceada entre pesquisas experimentais, pesquisas de casos espontâneos e artigos teóricos.

Na Europa, o centro mais importante é a Koestler Chair of Parapsychology (KCP), na Universidade de Edimburgo. Estabelecida em 1985 com fundos doados pelo casal Cristina e Artur Koestler, a KCP é não apenas um centro de investigações, mas também um centro de formação acadêmica, que confere o grau de Doutor em Psicologia, para pesquisadores que apresentem teses cujo tema seja ligado à Parapsicologia. Dirigido pelo Dr. Robert Morris, o foco da KCP é o relacionamento entre Psicologia e Parapsicologia, daí porque serem considerados trabalhos que apresentem, por exemplo, aspectos relacionados à psicologia da fraude, aos aspectos fenomenológicos das experiências parapsicológicas, aos aspectos de personalidade relacionados à tecnica ganzfeld e aos aspectos diferenciais entre psicopatologias e manifestações parapsicológicas. A KCP publica o European Journal of Parapsychology.

Na América Latina há alguns centros de pesquisa e difusão da Parapsicologia. Sem dúvida, a Argentina é o país que mais tradição apresenta na área. As décadas de 1960 e 1970 ficaram marcadas pelo trabalho do psicólogo de reconhecida qualidade profissional, Dr. Ricardo Musso. Nas décadas de 1970 e 1980, o trabalho do jesuíta e químico Novillo Pauli, no Instituto de Parapsicologia da Universidad del Salvador, foi reconhecido pelas suas pesquisas a respeito da ação psicocinética sobre o crescimento de plantas. Atualmente, o Instituto de Psicologia Paranormal é o mais ativo dos centros argentinos. Dirigido por Alejandro Parra, o instituto promove encontros, pesquisas e a publicação da Revista Argentina de Psicologia Paranormal.

No Brasil, as mais conhecidas personalidades da Parapsicologia são o Pe. Oscar G. Quevedo e o engenheiro Hernani Guimarães Andrade. O Pe. Quevedo dirige o Centro Latino-Americano de Parapsicologia (CLAP), criado por ele no final da década de 1960. O CLAP tem como atividade fundamental a difusão da Parapsicologia através de cursos e publicações. Na década de 1970, algumas pesquisas experimentais foram empreendidas e, até a atualidade, são desenvolvidas pesquisas de casos espontâneos, sobretudo, do assim chamado fenômeno de poltergeist ou casas mal-assombradas. O Pe. Quevedo escreveu nove livros até o momento, todos ligados à Parapsicologia e a questões religiosas. (Quevedo, 1978, 1982, 1983a, 1983b, 1983c, 1989, 1992a, 1992b, 1996)

Hernani Guimarães Andrade é um conhecido e ativo espírita, que fundou, na década de 1960, o Insituto Brasileiro de Psicobiofísica. Realizou várias pesquisas de casos espontâneos, sobretudo, do fenômeno poltergeist, e de casos de lembranças de vidas passadas. Escreveu monografias e livros em que apresenta e discute o impacto de suas pesquisas em suas concepções metafísicas. (Andrade, 1959, 1976, 1983, 1984, 1986, 1987, 1988) Quevedo e Andrade são o retrato da Parapsicologia brasileira até o início da década de 1990. As preocupações de ambos sempre residiram na utilização da Parapsicologia como instrumento de defesa e ataque religioso. (Hess, 1991; Zangari e Machado, 1995; Machado, 1996) No início dos anos 90, a Parapsicologia brasileira ganhou a presença de jovens parapsicólogos, mais afinados com propósitos científicos do que religiosos. Integrados ao trabalho dos demais membros da Parapsychological Association, esses parapsicólogos se organizaram e formaram centros de pesquisas e ensino, iniciaram publicações e fundaram uma organização profissional nacional. Tais parapsicólogos integram vários centros de pesquisa e/ou ensino, como o Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas; a Faculdade de Ciências Bio-Psíquicas do Paraná; o Curso de Pós-Graduação em Ciência e Parapsicologia, da Universidade Veiga de Almeida, no Rio de Janeiro; e o INTER PSI - Instituto de Pesquisas Interdisciplinares das Áreas Fronteiriças da Psicologia, da Faculdade Anhembi Morumbi. Surgiu uma publicação especializada, a Revista Brasileira de Parapsicologia e uma associação nacional, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Parapsicologia. Alguns brasileiros têm apresentado trabalhos nas convenções anuais da PA e publicado artigos em publicações afiliadas à PA (Carvalho, 1992; Zangari e Machado, 96) demonstrando o início de uma troca de informações entre brasileiro e estrangeiros. A Parapsicologia no Brasil, como ciência, é ainda adolescente: está se estruturando e buscando uma identidade. (Zangari e Machado, 1995)

Apesar dessas e outras vitórias, a Parapsicologia não conta com a aceitação da maior parte dos cientistas de elite. Em 1982, McClenon realizou uma pesquisa entre os cientistas de elite da American Association for Advancement of Science com o objetivo de obter informações sobre a posição e conhecimento dos mesmos em relação à Parapsicologia. (McClenon, 1984) Tais informações seriam importantes para se formar um quadro do processo de reconhecimento da Parapsicologia, tendo como pano-de-fundo o fato de que a legitimação científica do campo é um processo retórico e político. Como conclusão dessa pesquisa, McClenon escreceu:

"A população dos cientistas de elite pesquisada neste estudo demonstrou um grau de ceticismo em relação à ESP mais alto do que qualquer outro importante grupo pesquisado nos últimos vinte anos. Essa dúvida sobre a probabilidade da ESP está positivamente relacionada à rejeição da legitimidade da Parapsicologia. Na população de cientistas que constituia uma elite ‘administrativa’, esses resultados lançam luz sobre a razão pela qual a Parapsicologia falhou em ganhar total legitimidade na comunidade científica, mesmo que seus proponentes tentassem adequá-la a todas as normas e cânones da ciência. Nesse grupo de cientistas de elite, a crença na ESP está mais proximamente relacionada à experiência pessoal do que à familiaridade com a literatura sobre psi. Há uma tendência daqueles que duvidam da existência da ESP em citar uma razão apriorística para sua opinião. A freqüência de experiências anômalas relatadas pelos membros dessa população é alta e positivamente relacionada à sua crença na ESP. Comparada com a população americana em geral, essa elite de cientistas relata baixa porcentagem de experiências anômalas. Isto sugere que tais experiências violam aspectos da visão de mundo científica e que aspectos da educação científica e do processo de socialização reduzem o valor dado a essas experiências. Estes resultados são semelhantes àqueles apresentados pelo Gallup (1982). Ele encontra em um levantamento nacional líderes científicos e autoridades médicas tendem a rejeitar, desacreditar ou explicar os casos de ‘experiências próximas da morte’. Enquanto 67% da amostra nacional endossou a crença na vida depois da morte, apenas 32% dos médicos e 16% dos cientistas assumiram tal posição na amostra do Gallup.

Pode-se esperar que os cientistas de elite defendam a visão de mundo científico mais vigorosamente que os cientistas que não são de elite porque parte de seu papel como elite é definir a natureza da ciência. Isto os leva à tendência de estigmatizar os cientistas que investigam experiências anômalas (ou que tentam induzir tais experiências sob condições de laboratório) como tolos, incompetentes ou fraudulentos". (McClenon, 1984)

"Apesar da maioria dos cientistas modernos enxergarem a pesquisa parapsicológica como legítima, os cientistas de elite se constituem em problema especial aos parapsicólogos. Diferentemente da maioria dos cientistas de faculdades, que aceitam a possibilidade da existência de ESP (Wagner & Monet, 1979), os cientistas de elite tendem a rejeitar alegações parapsicológicas." (McClenon, 1990)

 

Essa pesquisa nos mostra que os cientistas de elite não conhecem as pesquisas parapsicológicas, seus resultados e suas implicações. A crença na ESP, baseada em experiências pessoais, é o fator mais importante para, indiretamente, legitimarem a Parapsicologia. Mas, a partir da pesquisa de McClenon, é possível se esperar uma crescente aceitação da Parapsicologia, já que haveria uma crescente crença em psi. Existe um relacionamento positivo entre idade e crença na ESP.

"Em 1981, a porcentagem dos cientistas de elite da AAAS que nasceram antes de 1919 e que acreditavam na ESP como um ‘fato’ ou como ‘provável’, foi de 25%. Daqueles nascidos depois de 1936, 39% enquadram-se nessa categoria. Se essa correlação significa uma tendência, a maioria dos ‘mais jovens’ cientistas de elite serão mais ‘crentes’ na ESP nas próximas décadas". (McClenon, 1984)

O que é importante notar, novamente, é que a legitimação da Parapsicologia depende de fatores objetivos como a validade dos métodos de avaliação utilizados; do peso das análises estatísticas favoráveis à exitências dos fenômenos parapsicológicos; mas também de fatores subjetivos, relacionados a aspectos pessoais e grupais. É possível que Heisemberg estivesse certo ao afirmar que "uma geração não muda de opinião pela mera apresentação de argumentos. As opiniões são mudadas porque essa geração morre e uma nova toma o seu lugar".

  Panorama futurista

Que fatores poderiam contribuir para a total legitimação da Parapsicologia como ciência? O que isto representaria a nível de impacto para a ciência?

McClenon oferece quatro possíveis cenários para que a Parapsicologia seja aceita integralmente como ciência. O primeiro seria se os parapsicólogos oferecessem uma explicação macanicista para psi.

"Tal explicação deve interpretar os fenômenos como máquina, de forma causal, geralmente usando termos físicos, químicos ou matemáticos". (McClenon, 1990, p. 129)

O apelo à teoria conhecida, à visão clássica de ciência ou de cientificidade de uma disciplina, é vista como uma saída possível. Mas isto não implicaria na interpretação errônea de psi? A compreensão de psi não implicaria, como as pesquisas parecem apontar, que será necessária uma nova concepção da realidade, que possa integrá-lo como ‘natural’ ou ‘normal’? A aceitação de psi não está esperando por um cenário de revolução científica?

O segundo cenário proposto, teria como base o fato de que algumas pesquisas em outras áreas da ciência pudessem dar apoio à crença de psi. Por exemplo, descobertas da Física, ou da Neurologia, poderiam dar suporte à ESP, digamos, por reconhecer a existência de ‘troca de informação entre sistemas vivos à distância’.

O terceiro cenário teria como protagonistas não os cientistas apenas, mas toda a população, que teria tal nível de aceitação da idéia de psi, que seria impossível negar seu estudo nos meios acadêmicos. A crença em psi pode ser uma das conseqüências da expansão de movimentos sociais, como o Esoterismo ou a Nova Era, ou mesmo o Espiritismo, que não nega a existência de psi entre os vivos, apenas a estende para a possibilidade de psi entre vivos e mortos.

O quarto cenário seria produzido por mudanças demográficas pelas quais as nações estão passando. A população de velhos aumenta rapidamente no planeta. Isto poderia levar a população a se interessar mais pelo tema da morte.

"Um ramo da Parapsicologia que conduz pesquisas científicas sociais ‘normais’ relacionadas a eventos de experiências próximas à morte e de aparição, poderão ser aceitos pelos cientistas estabelecidos que estarão buscando pelo desenvolvimento de técnicas de ajuda a uma população crescentemente mais idosa e sofrendo dos traumas da morte" (McClenon, 1990, p. 133)

Não sabemos qual será o futuro da pesquisa parapsicológica, mas sabemos que as implicações científicas relacionadas com as experiências parapsicológicas são evidentes. Nosso conhecimento sobre a consciência pode estar limitado. Os limites que impomos à realidade podem ser muito estreitos. Nossas teorias sobre a comunicação humana podem estar deixando de lado um aspecto importante do relacionamento entre os seres humanos. Da mesma maneira, nossas concepções sobre a ação do ser humano no ambiente podem estar excluindo processos que implicariam em uma maior integração entre o ser humano e seu meio.


Inter Psi
Grupo de Semiótica, Interconectividade e Consciência,
Centro de Estudos Peirceanos,
Programa de Estudos Pós-Graduados
em Comunicação e Semiótica,

PUC-SP
BRASIL

 

Referências

 

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*Originalmente publicado en Revista Virtual de Pesquisa Psi Este artigo foi baseado no primeiro capítulo da dissertação de mestrado do autor, "Parapsicologia e Religião: Um estudo da importância das experiências parapsicológicas para uma compreensão mais abrangente do fenômeno religioso", Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências da Religião, PUC-SP, 1996. O autor agradece o apoio financeiro da agência CAPES.

     ** Wellington Zangari es director de Inter - Psi: Grupo de Estudios de Semiótica, Interconectividade e Conciencia, Centro de Estudos Peirceanos, Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica, PUC-SP.  Además es miembro pleno de la Parapsychological Association (PA)   y miembro de la Junta Directiva de la Asociación Iberoamericana de Parapsicología (AIPA).  Premiado en 1998 con el "Gertrude Schmeidler Student Award"  otorgado por la Parapsychological Association (PA).  

 

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